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DESTAQUE DO MÊS

Nascida no Bié, viveu os períodos mais tensos da guerra civil angolana antes de se refugir na capital do país, Luanda. Vassole Chombossi, é a prosopopeia da coragem e do querer.

Licenciada em Administração Pública pela Universidade Óscar Ribas, fundou várias empresas em Angola. Começou a empreender na Construção Civil, passou pela Imobiliária, Petróleo e Gás, Comunicação e Eventos, e actualmente actua no sector da Educação com programas de Bolsa de Estudos Externas.

Há três anos escolheu viver em Portugal, a também conhecida “Menina dos Ossos”, por causa das brincadeiras de infância, embarca connosco para uma viagem sobre a sua vida. Contando-nos, abertamente, os caminhos pelos que percorreu para hoje se firmar como uma das angolanas mais influentes da diáspora.

Portal Fora da Banda(FB) – Quem é Vassole Chombossi?

Vassole Chombossi (VC): Vassole, é uma menina iluminada como o Sol, que carrega o nome da sua avó paterna. Nascida numa família tradicionalista da província do Bié. Uma menina-Mulher muito forte e bastante alegre, apesar da infância sofrida e marcante que teve, não se abate e nem perde a alegria de viver. Aliás, é como tenho dito e sublinho: Sou sobrevivente de guerra. (Risos)

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Portal Fora da Banda (FB) – Conta-nos um pouco como foi a sua infância?

Vassole Chombossi (VC): Olha, a minha infância estava a ser normal e muito boa até a guerra começar na minha província. Uma infância normal, como qualquer criança do Bié daquela altura. Brincávamos às garrafas, ou seja, jogávamos “garrafinha”, saltávamos a corda, brincávamos com carrinhos de lata feitos pelos meninos e, o que mais me marcou aqui é o facto de brincarmos na época da guerra com “ossos humanos…”

Portal Fora da Banda (FB) – A partir de que momento entra para o mundo dos negócios?

Vassole Chombossi (VC): …É um pouco chato falar sempre da guerra. Mas, por ser a génesis e daí ter surgido o mundo dos negócios para mim. Eu sou a terceira filha dos meus pais, e aconteceram tantas coisas na minha família devido ao conflito armado que o país viver durante três décadas; o que me esforçou a ser adulta sendo ainda criança… (Emociona-se)

Portal Fora da Banda (FB) – Qual foi o capital inicial e desde quando se sentiu pronta para alavancar-se num mundo dominado por homens?

Vassole Chombossi (VC): Não consigo aqui precisar o capital inicial. Quando comecei, fi-lo logo com somas avultadas, porque achava que assim teria lucros bem maiores. Mas, com tempo fui aprendendo que para investir não é necessário começar com valores altos (atenção é bom ter um bom capital inicial), porém devemos ter estratégias de negócio e principalmente educação financeira para não torrarmos tudo logo no início.

Portal Fora da Banda (FB) – Quando é que decidiu sair de Angola e começar uma nova vida em Portugal?

Vassole Chombossi (VC): Quando me senti que era estranha no meu próprio país. Em Angola, para que os negócios corram tranquilamente, o investidor precisa “molhar muitas mãos”, entende-se, atenção. (Risos). Este proceder fazem-se normalmente com o que seriam lucros, e fazendo isso, meu caro, nenhum negócio sobrevive por muito tempo.
E também por viver muita pressão psicológica e social, decidi recomeçar distante da minha parentela, igual a Abraão, tendo escolhido, por uma questão de língua, Portugal para isso.

Portal Fora da Banda (FB) – Como foi o processo de adaptação?

Vassole Chombossi (VC): Devido a língua o processo de adaptação foi rápida, mas não foi tão fácil assim.

Portal Fora da Banda (FB) – Sente-se totalmente entrosada à sociedade portuguesa?

Vassole Chombossi (VC): (Risos) Sinto-me uma filha de Portugal. Mas, atenção, de Angola sinto muitas saudades da minha família. Mas posso lhe garantir que já estou entrosada, sim.

Portal Fora da Banda (FB) – Como é o meio empresarial em Portugal em comparação com Angola?

Vassole Chombossi (VC): Olha, é uma diferença abismal. Em Portugal não tens de “molhar” a ninguém. Aqui ou pagas impostos ou as multas fiscais serão seus fiéis amigos.

Portal Fora da Banda (FB) – E os negócios em Angola continuam? Como faz para gerir a sua equipa lá?

Vassole Chombossi (VC): Claro, alguns continuam.
Graças a Deus tenho sabido delegar. Aliás, para que os negócios corram bem mesmo à distância, é imperioso que se confie nas pessoas.

Portal Fora da Banda (FB) – Falou-nos (off) do ramo de Petróleo e Gás, como é que entra para este sector tão estratégico da economia angolana?

Vassole Chombossi (VC): Entro de uma forma inédita. Nem eu acredito que faço parte deste segmento de negócios, a sério. Fui regateando umas duas vezes e aí gostaram da minha forma de agir quanto ao negócio, foram me puxando e, quando dei por mim, estava lá a gostar de tudo e, então, decidi permanecer no ramo que sustenta a economia do meu país.

Portal Fora da Banda (FB) – Como vê a inserção da mulher no mercado petrolífero?

Vassole Chombossi (VC): Olha, é muito desafiador porque até alguns anos a mulher era estigmatizada para cuidar da casa. Hoje, a mesma (mulher) escolhe o seu lugar. O gráfico de mulheres no mundo petrolífero sobe de forma espetacular, seja como funcionárias activas, ou até nas administrações das empresas. Tem sido muito satisfatório de se ver.

Portal Fora da Banda (FB) – Enquanto falávamos, vimos que respondia uma ligação de uma editora. Desde quando escreve?

Vassole Chombossi (VC): (risos) Vocês são atentos!

Escrevo, sim. Comecei a escrever há já alguns anos. Mas a minha estreia no mundo da literatura está para muito breve.

Tenho um amigo, o Nuno Remendo, que sempre que necessitava, o pedia para ajudar-me com alguns textos, e sempre que analisava os meus escritos, dizia-me assim: “tu darias uma boa escritora”. E, coincidentemente fui convidada por uma Editora em Portugal (Caneta de Estilo) para fazer parte de uma colectânea feminina e, olha, aceitei na hora, tirei uma madrugada a escrever e logo de manhã enviei duas histórias, que foram aprovados pela editora.

FB – Para quando o seu primeiro livro?

VC: Está no forno.Já fermentou demais e bem daqui a pouco ele será servido para que seja degustado por todos os leitores e apreciadores. (Risos)

FB – Como surgiu o Convite para fazer parte da Colectânea Feminina?

VC: Devido a este amigo; ele propôs a editora o meu nome e entraram em contacto comigo. Depois do contacto não tinha como recusar, porque já estava feito. Então achei que era o momento certo para começar.

FB – Como é fazer parte de uma colectânea onde constam grandes nomes da escrita feminina lusófona?

VC: Sinto-me muito lisonjeada. Podem crer, se não neguei, foi mesmo porque soube antes que estariam prestigiadas escritoras e autoras. É uma honra e um privilégio para mim, uma novata nessas lides.

Depois que a ficha caiu, mesmo o livro ainda não estando pronto, já sinto o famoso “frio na barriga.” (risos)

FB – Contou-nos que escreve, sobretudo, sobre as suas vivências na guerra. O que mais lhe marcou no período que viveu no Bié?

VC: Uff…! Uma das coisas que me marcou profundamente, para além de brincar com bonecas de ossos humanos, foi ter de procurar comida à quilômetros de distância quando atacavam as zonas em que estávamos refugiadas. Isto é, quando ouvíssemos os barulhos dos tiros ou bombas, tínhamos de nos refugiar em cubatas com corpos decapitados para que não nos matassem caso fôssemos descobertos. Éramos obrigados a ficar debaixo dos corpos, como só se vê em filmes.

FB – Estando em Portugal, cria a Vossole´s- Assessoria de Eventos & Comunicação. O que a levou entrar neste ramo de negócio?

VC: A Vossole’s nasce da curiosidade. Numa outra conversa com o Nuno Remendo, eu mostrei-lhe o interesse de experimentar algo novo. No decorrer da explicação surgiu a ideia e, claro, a executamos em pouco tempo.
Sabemos que ainda temos muito trabalho pela frente, mas deixa-me vos dizer que temos uma equipa jovem, dinâmica e espetacular e que vos vais surpreender de tempo em tempo.

FB – O que faz de concreto a Vossole´s?

Vassole Chombossi (VC): A Vossole’s foi concebida primeiro para assessoria e eventos. Mas com o tempo fomos vendo outros nichos de oportunidades cá em Portugal, desde eventos corporativos, comunicação e imagem e, sobretudo, informar como vivem os angolanos na diáspora. Daí surgir o “Portal Fora da Banda”.

FB – Como entra para o mundo da Comunicação?

VC: Acredito ter respondido esta questão na pergunta acima. Mas… Foi em conversa que tive com um amigo e acabamos por nos tornar sócios.

FB – Sente-se uma mulher realizada?

VC: Evidentemente. Já fiz muitas coisas na vida profissional. Algumas tristes e falhadas, outras assertivas. Porém, hoje ganhei maturidade e aprendizado. Logo, escolho o que me pode tirar a paz então sinto-me realizada, sim.
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FB – Como vê a Diáspora angolana em Portugal?

VC: Agora vejo que está com uma dinâmica surpreendente. Já há muitos eventos a serem realizados, vejo que estamos a deixar a nossa marca e isso é louvável para nós que deixamos a nossa terra.

FB – Quando aperta a saudades da sua terra, o que faz para superá-la? Do que mais sentes falta do Bié em particular e de Angola no geral?

VC: De tudo e todos sinto falta, principalmente da minha família. Das conversas, das risadas familiares, de alguns pratos típicos. Mas quando aperta a saudade ligo para a minha mãe, ouço algumas músicas antigas; é como se recarregasse as energias.

FB – O que representa a Laurianne Chombosi para si?

VC: A minha Yanne representa quatro palavras: Alegria, Paz, Guerra e Força.

FB – Emociona-se ao falar da sua filha… O que sente quando falas dela?

VC: um misto de emoções indecifráveis.

FB – Um conselho para todas as mulheres que lutam quase sozinhas longe da família?

VC: É penoso. Custa bastante. Lacrimejamos vezes sem conta e sem esperança até o dia que quase quererás desistir e aí aparece uma luz. Luz essa que também te faz questionar se está, de facto, acontecer ou não? Nem sempre se trata de somas avultadas de dinheiro, mas sim, sobre a paz de espírito que mexe muito com o nosso emocional. Por isso, Fé, Foco e Força para todas as mulheres um brinde a nós.
E que tudo o que fazemos ainda é julgado pela sociedade por conta dos malditos padrões, mas devemos nos manter determinadas e resistentes.

FIM